Fala Founder: um papo com Matias Vazquez, do Sharing EC

Histórias e desafios que fizeram e ainda fazem parte da vida de founder de coworking.

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Aqui no Coworking Brasil estamos sempre buscando uma maior aproximação da comunidade. Hoje nasce o projeto Fala Founder, que vai dar voz para diversos founders de coworkings pelo Brasil para que eles possam contar suas histórias e desafios que fizeram e ainda fazem parte de suas trajetórias.

Começamos essa série tão especial com a participação do Matias Vazquez, um dos pioneiros do ramo em São Paulo e que segue na ativa com o Sharing EC — além de novos projetos de gestão de coworkings que estão para acontecer. Nosso bate-papo foi bem franco e o founder contou em detalhes todos os perrengues que enfrentou até alcançar o sucesso de uma comunidade unida e engajada.

Esperamos que esses relatos cheios de detalhes possam ajudar novos founders e também àqueles que já estão no mercado e precisam de um gás para seguir em frente. O Matias também deu dicas bem valiosas que só anos de experiência, erros e acertos podem proporcionar.

Enjoy it!

Principais pontos do papo:

Fernando Aguirre – Como você começou a se envolver com coworking? Por que você decidiu abrir um espaço?

Matias Vazquez – Em abril de 2011 eu estava indo para Houston e fiquei “ilhado” por conta dos efeitos de um furacão. Enquanto esperava no hotel em San Antonio, eu estava assistindo a televisão estatal de lá e passou uma propaganda sobre um Coworking em Houston. Eu estava com um amigo e na hora me questionei o que era o tal coworking e a proposta de networking, de colocar a sua empresa naquele escritório. Na hora eu pensei “quero isso pra mim!”.

Fui conhecer o espaço e fomos super bem recebidos, nos mostraram o espaço, as salas de reunião, as mesas compartilhadas, aquele monte de gente trabalhando junto. Na hora eu entendi que era aquilo que eu queria pra minha vida.

Mas, claro, eu precisava de um plano B, pois tinha acabado de ter filho, precisava de dinheiro. Eu tinha uma empresa de aula e tradução, então daria para eu trabalhar no coworking com as minhas demandas enquanto eu geria o espaço.

Então, chegando no Brasil eu fui ver se isso já existia aqui, porque eu nunca tinha ouvido falar. Encontrei dois espaços, o Ponto de Contato e o The Hub, e fui visitar o The Hub.

Daí pra diante, foram 8 meses até abrir o meu espaço.

 

Como foi o planejamento nesses 8 meses? Você visitou outros espaços? Como você buscou informações sobre o mercado?

Matias – Não existia bibliografia sobre o tema. Visitei todos os espaços existentes, na época uns 4 ou 5. Li muita coisa sobre espaços dos Estados Unidos, Canadá e Espanha, porque era o que tinha.

Quando eu falava que ia abrir um coworking e as pessoas não sabiam o que era, ficava difícil até de explicar. No fim eu falava para as pessoas “vem conhecer o espaço para entender”. Muitos perguntavam “tá, mas vai todo mundo trabalhar junto?”, e quando eu dizia que sim as pessoas diziam que não era possível isso acontecer. Isso dava uma insegurança, uma desanimada, eu não sabia se ia dar certo.

Na época não existia sala privativa, nem imaginávamos essa possibilidade. Naquele tempo isso seria visto como “traição ao movimento”.

 

Como foi o início, os primeiros meses? Quanto tempo levou até ter o seu primeiro coworker? Dava aquele medo de não aparecer ninguém para trabalhar?

Matias – Minha sorte é que, durante os 6 primeiros meses, em meu acordo com o proprietário do prédio não havia pagamento de aluguel e de condomínio, porque nós fizemos a reforma toda da estrutura.

Mas, de qualquer forma, eu precisava no mínimo recuperar a grana que eu tinha colocado na reforma, que eram todas as minhas economias e ainda uma parte que eu tinha pegado emprestado com a minha sogra.

Coloquei todo o dinheiro que eu tinha e, se não me engano, colocávamos R$ 10 por dia em AdWords. Então, se três pessoas clicassem no link do Google e sequer nos ligassem para saber mais, já era, a verba do dia tinha ido embora.

Eu lembro que eu tinha três cadeiras para o coworking inteiro e não tinha dinheiro pra comprar mais. Lembro que peguei uma cadeira da minha mãe e outra de casa que eu usava na recepção do espaço. Eu também só tinha o meu computador e um de reserva.

Quando tinha visita eu agendava um horário para atender a pessoa, porque eu continuei tocando o meu trabalho também. Então, quando vinha alguém conhecer o espaço, eu chamava o porteiro e a faxineira do prédio para ficarem lá para dar volume na sala, dar aquela impressionada, fingir que já tinha gente trabalhando.

Quando abrimos tínhamos espaço para 23 posições de trabalho — isso, claro, com as 3 cadeiras. Conforme eu ia fechando contratos eu ia comprando mais algumas.

Lembro do primeiro cliente, o Marcelo. Nós combinamos que ele usaria a sala de reuniões de graça para fazer as entrevistas para selecionar uma estagiária, e depois que ele contratasse a funcionária eles começariam a trabalhar no espaço pagando R$ 750 por mês para duas posições nos três primeiros meses e depois iria para R$ 990.

Quando ele fez o cheque eu falei pra ele que com esse dinheiro eu iria comprar as cadeiras e a TV para a sala de reuniões. Abri o jogo e falei que esse seria o destino do dinheiro. Aí conforme ele entrou, foram vindo mais pessoas e assim eu fui comprando o que faltava.

Eu sei que eu tive sorte, não vou negar. No 10º mês eu disse que, passando o Carnaval, ou entravam x pessoas ou eu iria fechar, pois não iria continuar colocando dinheiro ali.

Foi então que me ligou uma pessoa e perguntou se eu tinha vagas para 17 pessoas. Eu olhei para o espaço e ainda restavam 18 vagas das 23. A moça no telefone me perguntou qual era o preço, peguei a calculadora e fiz um preço na hora, chutei baixo. Ela disse que tinha interesse, mas duvidei que ia realmente acontecer.

Uns 10 minutos depois ela ligou de novo e perguntou se eu conseguia melhorar um pouco o valor. Baixei um pouco, mas ainda continuava descrente. Na terceira vez que ela ligou ela perguntou se eles podiam começar no dia seguinte. Eu disse que sim, mas que eles teriam que fazer o pagamento adiantado. Eles toparam e na hora depositaram o valor na minha conta, fiquei incrédulo.

Falei que eu precisava comprar as cadeiras antes deles começarem e eles falaram que levariam as deles.  Só aí que eu resolvi perguntar quem eles eram e eles falaram que eram a Campus Party.

Matias Vazquez

No outro dia eles estavam lá trabalhando. Eles acabaram ficando um ano inteiro. Começaram com 17 pessoas, aí deu 2 meses e, por conta deles, eu acabei pegando mais uma sala da frente. Aí depois eles meio que acabaram dominando todo um conjunto e eu acabei pegando mais espaço ainda para o coworking.

E foi aí que a coisa começou a andar, porque aí as pessoas veem que o lugar está cheio, querem trabalhar ali. Com o tempo fomos ampliando os serviços, melhorando a internet, e no fim acabamos pegando o prédio inteiro (o que levou um pouco mais de dois anos para acontecer).

Foi um crescimento relativamente rápido, mas porque nós éramos o único espaço em Pinheiros — no final de 2013 que foi abrir o segundo coworking no bairro. Depois começou a abrir um atrás do outro e hoje são cerca de 18 em um quilômetro quadrado.

 

E como foi a escolha da região? Por que Pinheiros?

Matias – Primeiro porque eu moro no bairro, amo Pinheiros, toda minha família mora aqui, eu já conhecia muita gente daqui. É um lugar com cara de bairro, vi que dava para fazer um trabalho com cara de comunidade mesmo, tanto que fizemos o Coworking na Garagem e nos aproximamos muito das pessoas do bairro, pois aqui é fácil de fazer isso. Pinheiros é um bairro que ou ele te empurra porque ele não te quer, ou é um bairro que te abraça de uma vez. E, no nosso caso, Pinheiros nos abraçou e aceitou tudo que fizemos.

Aos poucos fomos fazendo um trabalho de inserir o coworking na comunidade, de abraçar todos os comerciantes. Em todos os eventos a gente chama eles, pra mostrar o que temos a oferecer para a comunidade.

Você não precisa entrar no Google para procurar um advogado da região, você não precisa entrar no Google para procurar uma costureira em Pinheiros. Aqui no coworking a gente mostra tudo isso.

Temos esse foco em fomentar o business do bairro e sempre envolvemos os comerciantes

Aqui você tem o profissional que pode te oferecer um serviço não gratuito, mas muito barato simplesmente porque você é do bairro. Eu vejo as pessoas passeando com o cachorro, levando o filho pra escola, passando aqui na porta. Tem uma conexão diária.

Temos até um desconto para quem mora em Pinheiros, e os nossos coworkers muitas vezes também repassam o desconto em seus serviços para quem é do bairro. Para a sala de reuniões, por exemplo, entre os coworkers a gente não cobra. Se o coworker vai vender um serviço para o morador do bairro, a gente também não cobra a sala de reuniões. Temos esse foco em fomentar o business do bairro.

Para o Coworking na Garagem, por exemplo, os comerciantes podem participar de graça, mas precisam fazer alguma doação para repassarmos para a instituição do bairro. Depois vamos lá no albergue, entregamos as doações, tudo muito tranquilo, sem divulgação, sem a obrigação de mostrar que estamos fazendo. Não é uma ação de marketing, mas sim uma ação natural pelo bairro.

 

Conte pra gente um pouco mais sobre o Coworking na Garagem.

Matias – O objetivo principal do coworking na garagem é fazer a aproximação do espaço com o bairro. A gente coloca toda a operação para o lado de fora, as mesas do coworking, o wi-fi, as tomadas, tudo.

Na feira criativa, para quem deseja expor seus produtos, ou a pessoa deve ter o e-commerce dentro do coworking, ou deve produzir o seu próprio produto e ser do coworking, ou ser do bairro e produzir seu próprio produto.

Também colocamos dois food trucks na frente do coworking e o evento rola o dia inteiro ali. Depois das 18h, retiramos as mesas de trabalho e colocamos um som mais alto e rola chopp até as 21h. Temos um acordo com a vizinhança de deixar rolar o som até esse horário, depois desligamos e o pessoal fica por ali mais sossegado.

Ou seja, quem é do bairro pode ir lá trabalhar, levar seus cartões de visita, fazer uma troca e curtir o dia.

 

Como foi essa aproximação com a comunidade de vocês? Como essa relação com o bairro se construiu?

Matias – Eu sempre tive alguém que ia me ajudando, mas foi muito de ir falar com porteiro e zelador de prédio, depois com o síndico, e assim fui mostrando o que era o projeto. Entregava um panfleto, eles colocavam no mural do prédio e assim foi indo. Estamos num bairro bem misto, com casas residenciais e com comércio, então eu ia me apresentando, apresentando o coworking — que não tem uma placa enorme na frente, tanto por segurança como para mantermos o low-profile.

Fui me apresentando e explicando o que fazíamos, convidando as pessoas para conhecerem o espaço. Sempre fizemos esse contato com porteiro, zelador e síndico tipo um mês antes dos eventos, que aí dava tempo pra eles explicarem pros demais moradores e deixar as informações nos murais e elevadores do prédio.

Na nossa rua têm várias casas de móveis e de decoração, então nós convidávamos esse pessoal pra conhecer o coworking e fazíamos o contato deles com o arquiteto e o decorador que trabalha dentro do espaço. Aí no dia do Coworking na Garagem os comerciantes faziam alguma promoção na loja e convidavam os visitantes do evento para irem na loja conferir os produtos.

Nós apresentamos o Coworking na Garagem para os comerciantes, que nos ajudaram e divulgaram para os seus clientes. Então é todo um trabalho com a região mesmo.

E para o público interno, vocês fazem eventos e atividades específicas?

Matias – Sim. Durante mais de três anos sempre fizemos a festa mensal dos aniversariantes, um momento de descontração e mesmo de networking. Mas nos últimos 6 meses, eu percebi que isso se perdeu um pouco. O pessoal ia, cantava parabéns, comia o bolo e voltava a trabalhar.

Aí então, nos últimos meses, nós transformamos esse momento em café da manhã ou em happy hour fazendo um mix do pessoal das duas unidades que temos. É o momento que o pessoal tem que, obrigatoriamente, se apresentar. Eu pergunto o que a pessoa está precisando, qual é o desafio do mês, porque ela está ali. No final, depois que todo mundo se apresentou, o pessoal começa a conversar entre si para trocar contatos e referências, porque um sempre vai ter uma ideia para ajudar no problema do outro. Acabamos percebendo que, dessa forma, conseguimos gerar novos negócios entre os coworkers.

É quase como administrar um condomínio, não um coworking. É muita coisa para pensar, para aprender

Sempre tivemos uma parede com todas os logotipos que faziam parte do espaço, com a identificação de cada coworker e do que eles faziam lá. Como agora estamos com duas unidades e essa tarefa ficou mais difícil, contratamos uma empresa que fez todo um mapeamento do que cada um dos profissionais faz, para fazer um link entre os coworkers, e ver o que cada um está precisando.

Nos demais eventos que fazemos para os coworkers, sempre tem alguma empresa que vem palestrar e deve necessariamente oferecer algo para os coworkers. No último evento, por exemplo, o pessoal do Bradesco veio dar uma palestra sobre o mercado financeiro e ofereceram para o nosso público interno um ano de anuidade grátis de cartão de crédito, além de três meses de mensalidade gratuita e seis meses sem pagar Doc e Ted.

 

Como foi esse projeto de se aproximar de empresas terceiras, com marcas do porte de Bradesco e Amazon?

Matias – Aqui todo mundo conhece todo mundo, então esse contato acaba acontecendo de alguma forma, naturalmente. Pra gente é benéfico esse contato, pra eles também, porque num ambiente de 300 pessoas, se a marca conseguir vender algo pra 20 ou 30 já é muita vantagem.

 

Qual o tamanho da sua comunidade hoje? Quantos coworkers trabalhando diariamente?

Matias – São cerca de 330 pessoas, entre espaços compartilhados e privados. A nossa meta é chegar até o final de 2018 com 700 pessoas entre os dois prédios. 20% hoje só é compartilhado, e tende a diminuir. É o que o mercado está pedindo, mais salas privativas.

Como foi sair de uma sala para 23 pessoas para um prédio inteiro e depois duas unidades? Como foi esse pulo?

Matias – Na verdade essa segunda unidade nem era um projeto meu. Eu tinha uma sócia que acabou largando a coisa no meio e eu segui tocando. Pegamos um prédio do zero, que não tinha nada, montamos tudo, estamos com sete andares prontos, faltando mais três, tudo com investimento próprio. Não temos nenhum sócio investidor, então ainda procuramos algum sócio, algum fundo. Mas enquanto não encontramos, seguindo trabalhando e correndo atrás. É difícil, mas estamos montando.

Eu tive que aprender muita coisa nesse processo todo, desde o que é uma bomba d’água até o que é um shaft de energia. É quase como administrar um condomínio, não um coworking. É muita coisa para pensar, para aprender.

Como você vê a gestão das pessoas no dia a dia? Como vocês fazem para inserir um novo coworker e fazer ele se sentir parte da comunidade?

Matias – Basicamente, nos primeiros dias a gente faz todo o tour no coworking. A gente praticamente pega na mão da pessoa e leva para conhecer tudo. Tem andar que o cara nunca vai precisar ir no dia a dia dele, mas a gente mostra para ele ver quem são as pessoas que estão ali. Aí rola aquela coisa de ir apresentando o pessoal, fazendo uma piada sobre o cara que está há mais tempo, para dar uma quebrada no gelo. A ideia é fazer a pessoa se sentir parte mesmo, pra que no outro dia alguém já dê um bom dia pra ela e aos poucos ela vá conhecendo todo mundo.

Desde o gestor até o porteiro, a gente cumprimenta todo mundo todo os dias, faz contato e se interessa pelas pessoas todos os dias. Tentamos fazer isso para lembrar todos os dias das individualidades de cada um, para que as pessoas se sintam em casa.

É importante que o gestor do espaço esteja ali ouvindo o que as pessoas estão precisando

Então, no primeiro dia a gente já tenta fazer tudo pra pessoa: instalar a impressora pra ela, colocar o site do profissional no nosso canal interno, já colocamos o e-mail dele no Google Agenda e assim por diante. Só nesse inicial, já passamos algumas horas do dia com a pessoa e ela de cara ele já tem contato com umas 20 pessoas, o que já deixa o novo coworker mais tranquilo, mais confortável.

Ah, é importante dizer que quando o coworker fecha com a gente, ele tem acesso a qualquer uma das duas unidades que ele queira trabalhar.

 

Você tem algum exemplo de projeto bacana que tenha acontecido a partir da integração dos coworkers? Que tenha surgido por causa do coworking, por elas terem se conhecido ali dentro?

Matias – Só no último café da manhã, de eu ficar atento às conversas e necessidades do pessoal, eu já consegui fazer o meio de campo pra uns quatro negócios. Uma marca estava precisando de brindes, por exemplo, e eu sabia que a outra estava com material parado em estoque.

Às vezes as pessoas estão muito no dia a dia delas, e eu estou no dia a dia de todos. Por isso é importante que o gestor do espaço esteja ali ouvindo o que as pessoas estão precisando. Se não tiver ninguém fazendo isso, o coworking está fadado à quebra. Porque se você não for uma das pessoas preocupadas pra fazer toda essa parte de pensar em como o seu cliente vai ganhar dinheiro, você está quebrado.

Tem vezes que o teu cliente está tão preocupado com um cliente, em como ganhar dinheiro, que nem percebe que a pessoa que senta ao lado está precisando do produto dele. Então às vezes é o gestor do espaço que consegue juntar os dois e fazer o negócio acontecer.

 

Nesse sentido, como é que você escala um espaço de coworking? Você sentiu uma diferença quando saiu da primeira unidade para a segunda? Porque uma coisa é você ter uma relação com 30 pessoas, outra coisa é com 300. Como é que você consegue manter essa relação sempre próxima com todos? Ou chega uma hora que você assume que não vai conseguir conectar todos?

Matias – Eu acabei ficando mais distante nos últimos tempos pela questão de montar o novo prédio, e o pessoal começou a chegar pra mim falando que a qualidade do primeiro espaço estava caindo, que o pessoal começou a reclamar. E aí fica aquela coisa: o coworking é a pessoa ou a pessoa é o coworking? Aqui no Brasil a gente tem muito isso ainda de atrelar o coworking a uma pessoa, falta ainda um certo profissionalismo.

Então eu tive que recomeçar a questão de relacionamento, conversar com as pessoas, juntar as pessoas novamente, promover negócios e, dessa forma, de novo reconquistamos os clientes. Mas é um trabalho duro, cansativo.

Mas você acredita que é possível repassar esse treinamento para outras pessoas? Esse é um modelo que pode ser escalável? Ou você acha que, no seu espaço, vai estar sempre preso ao Matias pra fazer isso?

Matias – Eu acho que tem a parte intrínseca da pessoa, mas sim, você também consegue passar isso adiante. Só que aí você tem outro problema, que é das pessoas estarem acostumadas a você, e mesmo outra pessoa fazendo um trabalho excelente, elas continuarem querendo que seja você ali à frente.

sharing ec
Segunda unidade, localizada na Rua Conego Eugenio Leite, 1173

Como você viu a entrada dos grandes espaços em São Paulo?

Matias – Não foi muito legal o jeito que eles entraram, porque eles fizeram um dumping pesado. Os grandes nomes que vieram de fora e entraram no Brasil, quando você tem tanto dinheiro, acaba sendo um pouco complicado com o restante do mercado. Eles têm andares inteiros locados por empresas grandes cobrando preços muito baixos, valores que sequer pagam a estrutura enorme deles em endereços tão nobres. Essa conta não fecha.

 

E o que você entende que atrai os coworkers para os espaços como o WeWork? O que faz eles trocarem seus espaços que já dão certo para ir pra lá?

Matias – Nós fizemos uma visita lá para ver como era, e a primeira coisa que acontece quando você entra no espaço é que os caras já te recebem oferecendo chopp grátis. Se você recusa eles te oferecem um café diferenciado, super elaborado. Então, assim, é o WeWork, é tudo muito bonito lá, até no banheiro se você for tem música da Taylor Swift tocando. O ambiente é supermoderno, os móveis são de grife, coisa que nenhum coworking tem. Essa é a diferença, além do nome que tem por trás.

Quando um prospect de coworker chega pra mim e diz que está entre o Sharing e o Spaces, ou entre o WeWork, eu agradeço ele, mas deixo bem claro que nós não somos concorrentes dessas marcas, que não faz sentido o que ele tá me falando. Num caso desses, se eu for “comparado” com esses espaços, eu realmente fico na dúvida se fico lisonjeado ou revoltado. São dois mundos totalmente diferentes.

 

Você acredita então que eles vão competir somente entre eles, e não com o restante do mercado?

Matias – Cara, a WeWork investiu, só no espaço da Avenida Paulista, alguns milhões. Não é o nosso mundo, é outra briga completamente diferente.

 

E o que você vê do futuro do mercado? Você acha que vai acabar entrando outros poderes dominantes como esse? Você imagina que os coworkings de bairro vão acabar ficando mais de nicho ou que eles vão ficar maiores e começar a competir com esses grandões?

Matias – Eu acho que com a entrada de espaços como o WeWork, o Spaces e o Copa, que vai entrar em breve, agora vai sobreviver quem tem capacidade. Agora a gente vai começar a nivelar por cima, a coisa mais amadora vai acabar. Então, realmente, a gente vai saber o que é coworking. Quando alguém falar em coworking, as pessoas vão pensar na WeWork. Os outros coworkings vão começar a ter uma identificação diferente, vão ser identificados por suas características de nicho. É nesse momento que os espaços vão ter que encontrar a sua segmentação, a sua identidade.

Não ache que você sabe tudo, porque você não sabe

Aqui mesmo, eu voltei a me relacionar mais com o coworking, a ter uma pegada mais business, comecei a apostar no coworking de moda, em estúdio, comecei a apostar em serviço, que era uma coisa que a gente não fazia. Hoje eu estou diversificando, coisa que eu não fazia antes.

 

Me fala um pouco do futuro de vocês. Vi que vocês estão com um espaço de moda, outro de fotografia. Como o pessoal está percebendo isso para a comunidade? As expectativas estão como vocês esperavam?

Matias – O estúdio de fotos e de vídeo está bem bacana, está tendo bastante procura. Ainda não descobrimos como fazer a precificação, então ainda estamos testando a questão das diárias, dando algumas horas diárias gratuitas, até descobrirmos exatamente como fazer.

A gente acabou de comprar os últimos instrumentos de iluminação, porque oferecemos tudo. A pessoa pode vir com o iPhone gravar um vídeo que aqui tudo vai estar pronto (somente a câmera não oferecemos, mas até isso se precisar temos uma câmera reserva). Temos tudo: iluminação, fundos, decoração, tudo incluso.

Então, como ainda temos três andares do prédio para montar, se eu ver que o estúdio vai dar certo, eu monto meio andar só pra isso. Porque hoje em dia você não tem espaços de coworking com isso. Vimos que tinha muita gente, dos nossos coworkers mesmo, que tinha e-commerce e precisava fotografar produto, e agora temos essa estrutura.

A ideia do coworking de moda não é alugar o coworking. Fizemos algumas parcerias com faculdades e institutos para ceder o espaço para os estudantes. Isso porque percebemos que a maioria dos estudantes de moda não tem a veia de inovação e de negócio. Então na hora que ele monta a roupa, a ideia, ele percebe que não sabe o que fazer com o negócio. Então ele não tem site, não tem contador, não tem o modelo, ela não tem uma marca, ela não tem nada. E onde ela vai achar tudo isso? Aqui dentro do coworking.

Então, a ideia do coworking de moda não é ganhar dinheiro com o coworking de moda, mas sim fazer com que a pessoa consuma tudo o que ela precisa aqui dentro, diretamente dos nossos coworkers, desde uma agência de marketing até os fornecedores, ela vai consumir tudo aqui dentro.

 

E por que a escolha da moda especificamente?

Matias – Porque a moda é uma coisa que está crescendo, e aqui em São Paulo você só tem dois espaços focados pra moda na cidade toda. E a gente já tinha essa facilidade porque temos aqui dentro um projeto de aceleração, por enquanto de duas empresas, a Ouro Saga e a Sirius.

É um projeto pequeno ainda. A gente não acelera com valores, mas com o espaço e a mentoria. Então, por causa deles, acabamos fechando parceria com um instituto de design. E aí com eles também a gente acabou firmando parceria com toda a parte de moda.

A partir disso, descobrimos que rola muito de quem desenha não costura, quem costura não desenha, e quando os dois se juntam, nenhum dos dois sabe empreender. Daí surgiu a ideia do coworking de moda, pra fazermos a roda girar e ir conectando todas as pontas soltas.

 

E nessas experiências todas, se você pudesse voltar lá para o início em 2011, o que você teria feito diferente?

Matias – Certamente teria achado um sócio para tocar isso aqui. Só isso mesmo, pra poder ter mais capital inicial para fazer as coisas acontecerem. No mais eu não mudaria uma vírgula do que eu teria feito.

Ah, eu também teria ajudado algumas pessoas mais no caminho, mas que eu não ajudei porque não tive tempo. Eu sinto que posso ajudar mais pessoas e projetos, mas não tenho braço pra abraçar isso tudo sozinho.

 

E que dica você daria para quem pretende abrir um espaço em breve?

Matias – Não ache que você sabe tudo, porque você não sabe. Não tenha certeza de que aquilo vai dar certo. Converse com pelo menos dois ou três founders, vá visitar pelo menos uns 10 ou 15 coworkings da sua cidade, de diferentes regiões, e invista em visitar coworkings fora do país. Isso porque são eles o que a gente vai ser daqui a dois ou três anos. Precisamos entender que eles são hoje o que vamos ser daqui a pouco.

Quando eu falava, lá em 2014, em eliminar espaços compartilhados e fazer mais salas privativas, o pessoal me criticou, falou que eu estava traindo o movimento. Mas olha como as coisas estão agora!

 

E aí, o que achou de conhecer mais de perto a trajetória de um founder? Deu para inspirar um pouco? Conseguimos provocar insights para o futuro que se aproxima?

Nossa ideia é que essa série seja mensal, e se você quiser deixar a sua opinião sobre ela nos comentários, será bem bacana pra gente ter esse feedback. Assim sabermos se estamos indo pelo caminho certo 🙂