Esse é um artigo fora da nossa linha tradicional, e que sinceramente, relutei um pouco pra escrever. Às vezes sinto que o mundo inteiro está falando da mesma coisa, e que as pessoas estão ficando um pouco paranoicas. Sabe como é, desgraça sempre dá audiência na mídia.

Ao mesmo tempo, justamente por falta de acesso à informação, no passado tivemos perdas enormes em eventos similares. Então a gente acaba entrando em um paradoxo. Muita informação nos paralisa, pouca informação pode ser pior.

A verdade é que esta é a primeira vez que uma crise de saúde tão séria é transmitida em tempo real. Ninguém sabe muito bem o que fazer, como agir. Estamos todos aprendendo. No futuro vamos olhar pra trás e talvez perceber que fomos muito levianos na forma que tratamos o assunto, ou talvez que exageramos e perdemos a mão. Vai saber.

Indiferente de o que a história vai dizer, nesse momento, o cenário não é bom. Tanto do ponto de vista da saúde, com cada dia o número de casos de Corona aumentando no Brasil, como do ponto de vista econômico. Empresas estão fechando as portas, pessoas parando de circular e consumir, e diversos setores estão quebrando a cabeça pensando em formas de efetivamente não quebrar.

Turismo, setor aéreo, cinemas, comércio de rua, e claro, espaços de coworking. Todos estes segmentos que aglomeram pessoas, e de certa forma “não são essenciais” já começam a sentir o peso da diminuição de público. As pessoas querem ficar em casa o máximo possível – aliás, essa é a principal recomendação dos órgãos de saúde – então teremos que pensar em estratégias de como passar por essa crise com o menor impacto. É nesses momentos que colocamos os nossos negócios a teste. Estamos prontos para uma crise? Nos planejamos com antecedência?

O seu espaço vai ser (ou está sendo) impactado.

Talvez mais, talvez menos. Mas um modelo onde o principal argumento de vendas é exatamente juntar um monte de gente de diversos lugares diferentes no mesmo local, é inevitável que tenha um impacto. Por sorte, segundo o que temos acompanhado, a maior parte desse golpe será apenas econômico, não de saúde.

Pelo perfil de público dos espaços de coworking, a grande maioria dos coworkers estão fora do grupo de risco do vírus. Os mais impactados são pessoas acima de 60 anos. Abaixo dessa faixa, um coworker com saúde em dia deve ter pouco reflexo na vida pessoal. Mas é importante lembrar que essas pessoas possuem família. Que os espaços possuem funcionários e prestadores de serviços. Então mesmo que os seus coworkers estejam relativamente seguros, eles ainda podem ser grandes responsáveis por espalhar o vírus e contaminar pessoas dentro do grupo de risco.

É por esse motivo que a recomendação geral que temos ouvido é: fique em casa. Se você puder, apenas fique em casa. Aqui tem um ótimo video demonstrando como o isolamento social ajuda nestes casos.

Home office ao resgate!

O Coworking Brasil é uma empresa 100% remota. Nosso time pode optar em trabalhar em espaços de coworking ou em home office. Eu, pessoalmente, trabalho em coworking. Mas nos últimos dias tive que me readaptar a rotina de home office. Fazia tempo que não passava tanto tempo em casa. É amor e ódio.

A maioria dos seus coworkers provavelmente tem uma flexibilidade parecida, e mais cedo ou mais tarde irão aderir ao modelo. Talvez por vontade própria, para evitar se tornar um vetor de transmissão. Talvez por falta de opção, porque existe a real possibilidade de chegarmos em um nível que será irresponsável manter o seu espaço aberto ao público. Algumas cidades como São Paulo já estão estudando medidas para fechar o comércio.

Se você quiser passar dicas para o seu público de como aproveitar sua temporada no home office, recomendo o belo trabalho do Adoro Home Office, da Márcia Breda. Ela, inclusive, já escreveu aqui pra nós no passado.

Como manter o fluxo de caixa em dia, quando meus coworker não querem vir ao espaço?

Nenhuma discussão nesse sentido vai ser produtiva se você não tiver em mente uma coisa: tenha bom senso. Ninguém está cancelando contrato e se isolando em casa porque quer, porque acha divertido te prejudicar. É uma situação completamente inesperada e fora dos padrões.

Eu sei que contratos são para ser cumpridos, mas seja flexível em momentos de crise. Algum tempo atrás eu precisei cancelar temporariamente um contrato com um espaço de coworking e tive uma péssima experiência. Depois de três anos de relacionamento, decidi nunca mais voltar no local. Eles estavam certos, os termos eram claros no contrato. Mas pra mim, se três anos de relacionamento não geram pelo menos um diálogo para chegar em um meio termo, esse não é o tipo de empresa que eu quero ser fiel.

Com os seus coworkers será a mesma coisa. Lembre-se que nenhuma crise é pra sempre, e se eles te escolheram uma vez, nada indica que não farão o mesmo quando toda essa situação melhorar. A menos, é claro, que você estrague tudo agora.

Vou ser claro e direto aqui: nada que você fizer nesse momento irá manter as pessoas no seu espaço se elas quiserem ir pra casa. Mas muita coisa pode impedir que elas voltem.

Aliás, se você não se colocar no papel de cliente, e tentar chegar em um acordo amigável, só tem a perder. Juridicamente crises de saúde encaixam em “motivo de força maior”, o que abre uma grande porta para o cancelamento do seu contrato sem discussão.

Algumas sugestões:

Estive conversando com alguns gestores, e uma ideia bacana que vi circulando é fornecer um voucher para o seu coworker. Em vez de você devolver o valor pago, eles recebem a possibilidade de utilizar o serviço em um momento futuro. Isso funciona bem para salas de reunião, eventos e até posições de trabalho. Pode ser um bom meio termo pra alguns, mas não pra todos.

Eventos com data específica, por exemplo, se não acontecerem naquele dia não acontecem mais. Nesses casos não vai adiantar muito pro cliente manter um voucher de algo que deixou de precisar. Um bom papo para encontrar o meio do caminho será necessário.

No fim, eventos extremos como esse são momentos de reflexão. Reflexão pessoal, é claro, mas também profissional. Será que você modelou o seu negócio da melhor forma possível? Você tem fluxo de caixa para aguentar um movimento assim?

Lembre-se que não precisa ser uma pandemia para colocar o seu coworking em alerta. Poderia ser um incêndio na sala ao lado, um cano de esgoto que estourou, um problema qualquer na rede elétrica da sua rua. Enfim, existem inúmeros contratempos que podem fazer o seu negócio fechar temporariamente por longos períodos. Qual o seu planejamento de crises?

Caso não tenha feito a lição de casa, ainda existem algumas opções. Como falei, tempos difíceis exigem medidas difíceis. Se você acha que a conta não vai bater no fim do mês, não fica esperando o problema chegar. É hora de ser proativo.

Talvez você possa renegociar com seus fornecedores. Pega o telefone, liga pro proprietário do imóvel e explica o motivo de atrasar o aluguel. Tente um pagamento parcial, se for o caso. Todos precisam fazer sua parte.

Ou talvez a sua própria rede possa te ajudar. Ofereça alguns descontos mais agressivos para quem pode fazer um pagamento anual pelo espaço, com garantia de que o tempo que eles não utilizarem irão virar créditos. Isso pode ser uma boa injeção de caixa.

Outra oportunidade interessante é reforçar o marketing dos produtos que não dependem tanto do contato físico, como o escritório virtual. Você pode adotar contratos digitais e dispensar completamente o contato físico. Espaços que possuem clube de membros, também podem aproveitar para oferecer novas vantagens e aumentar os argumentos de venda. Talvez não resolva completamente o problema, mas tudo ajuda.

Comunicação é sempre a chave.

No fim do dia, o que mais assusta as pessoas é o desconhecido. Então quanto mais clara for a sua comunicação, quanto mais informados estiverem seus coworkers, mais seguros eles se sentem. Talvez enviar alguns e-mails explicando o que vocês tem feito para manter o ambiente seguro, quais são os novos procedimentos de limpeza, quais são as principais recomendações e quem é o grupo de risco. Todo mundo já sabe disso, eu sei, mas pelo menos mostra que vocês estão atentos. Aliás, informe sobre as opções que eles tem. Talvez muitos coworkers continuem indo ao espaço porque “já está pago”, mas o que eles queriam mesmo é estar em casa com os filhos.

Com seu time, obviamente, vale a mesma coisa. Reforce muito sobre a importância de levar a sério os novos procedimentos. E se você tem funcionários com saúde mais debilitada, não hesite em pedir pra eles ficarem em casa um tempo (de forma remunerada, não preciso nem falar né?). Nesses momentos, é melhor prevenir do que remediar.

Além de comunicar, é legal você oferecer a estrutura necessária para que o pessoal se sinta seguro. Desde um álcool gel caso eles queiram limpar suas mesas, até papel toalha descartável no banheiro em vez de secador eletrônico. Alguns cartazes com procedimentos básicos de segurança espalhados em locais estratégicos também podem ser úteis.

Alguns espaços optaram em fechar a cozinha e manter apenas produtos industrializados. É uma abordagem interessante. Já os eventos de confraternização não preciso nem avisar que estão suspensos, né?

E claro, se você notar algum coworker com sintomas, não demore em conversar com ele e explicar porque ele deveria ficar em casa. É chato, eu sei, mas importante.

Eu deveria fechar o meu espaço?

Eu não sei, quem dirá isso são os órgãos oficias de saúde. Você deve estar preparado para caso precise fechar, mas se na sua cidade não existe nenhuma recomendação oficial, talvez ainda não seja a hora. Os seus clientes têm compromissos, e respeitar isso é importante. É só ficar de olho nas recomendações oficiais e lembrar que nenhum compromisso vale um risco à saúde.

É unânime entre os especialistas que o isolamento ajuda a conter a disseminação do vírus. Mas ele tem consequências. Sociais e econômicas. No Brasil, ainda estamos bem no início da curva e é impossível saber se vamos seguir uma tendência perigosa como na Itália, ou mais branda como na Coreia do Sul (que tem conseguido resultados incríveis, mas com muito trabalho). O Átila explica muito bem isso no vídeo abaixo.

Eu iniciei esse artigo falando sobre uma certa sensação alarmista que tenho sentido na mídia em geral, mas a verdade é que dependendo do rumo de crescimento que a doença se espalhar na sua cidade, talvez seja uma questão de cidadania você dar um tempo.

Também seria muito hipócrita de minha parte dizer para você fechar seu negócio, ao mesmo tempo que escrevo esse artigo de uma cafeteria. Calma, não sou um completo irresponsável. Dei uma fugidinha de casa após vários dias de muito home office e Uber Eats para tomar um ar na cara. Escolhi uma mesa ao ar livre, com uma boa distância de outras pessoas. E até chegar em casa, estou com o modo “contaminado” ativado. É um risco controlado pela sanidade mental.

Nada é 100% preto, nem 100% branco.

História rápida: Uma vez observando um jogador de Go desmontando o tabuleiro eu notei que ele guardava todas as peças de forma curiosa. Ele tinha dois potinhos. No primeiro, colocava todas as peças pretas. Já o segundo recebia as brancas. Logo antes de fechar o pote, ele pegava apenas uma peça de cada compartimento e jogava no oposto. A mensagem era simples, mas poderosa.

É assim que tenho visto esse momento atual. Eu acredito que muita coisa boa vai surgir daqui. As pessoas estão mais próximas, mais humanas. Algumas estão até voltando a conversar entre si, veja só. Estamos também aprendendo um pouco mais sobre bons hábitos de higiene pessoal, que no longo prazo, deve salvar milhares de vidas.

Além disso, do ponto de vista de mercado, eu vejo com MUITO otimismo o futuro médio/longo prazo. Vão ser tempos difíceis, é claro, mas pense em quantas empresas estão experimentando pela primeira vez o trabalho remoto.

Um número gigante de pessoas está tendo a primeira oportunidade de trabalhar de casa, e percebendo que ela consegue desempenhar suas funções normalmente. Talvez aquelas duas horas de trânsito diária não seja assim tão necessário. Eu acredito que essa é uma oportunidade incrível para muitas empresas entenderem que o trabalho remoto é mais fácil do que parece, e possui mais vantagens que elas imaginam.

Uma vez essa nova cultura implementada, a oportunidade para o nosso mercado será imensa. A gente sabe que o coworking sempre entra como um meio termo entre o home office e o escritório tradicional. Se uma empresa está aberta ao trabalho remoto, a migração de parte dessa galera para o coworking vai ser inevitável.

Talvez em seis ou doze meses, olhando pra trás, a gente veja que todo aquele alarme serviu para conter o Corona logo antes de ele fazer estragos sérios. E no fim, ainda ganhamos novos clientes sedentos por conhecer gente nova e vivenciar um pouco dessa tal “cultura coworking”.

Finalizando, algumas dicas práticas:

Você já deve ter visto isso em todo lugar, mas não custa apontar aqui também. Quando estiver conversando com a sua comunidade, aqui vão algumas dicas legais:

1. Lavar as mãos frequentemente com água e sabonete por pelo menos 20 segundos, lembrando sempre de secar as mãos com material descartável. Se não houver água e sabonete, usar um desinfetante para as mãos à base de álcool (70%. Não mais, não menos).

2. Evitar tocar nos olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas. Isso evita e muito o risco de contaminação, principalmente em ambientes onde há contato direto com as superfícies (ônibus, elevador, corrimão, porta, etc…).

3. Evitar contato próximo com pessoas doentes e, se necessário, utilize  material de proteção e faça higienização após o contato.

4. Ficar em casa quando estiver doente, dessa forma há menos chances de contaminar outras pessoas, inclusive mantendo-se seguro.

5. Cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar com um lenço de papel e jogar no lixo. Lembrar de em caso de não possuir lenço de papel, utilizar o antebraço e após higienizar a área com um desinfetante para as mãos à base de álcool.

6. Limpar e desinfetar objetos e superfícies tocados com frequência, principalmente smartphones que estão a todo momento sendo utilizados.

7. Não compartilhar objetos de uso pessoal.

Fonte: https://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/coronavirus

 

Além disso, duas dicas pessoais como bônus:

8. O pessoal tem falado muito sobre o álcool gel ultimamente, mas esquece de comentar que ele é uma alternativa para momentos de emergência. O mais eficiente mesmo, é o bom e velho sabão. Qualquer tipo de sabão é mais eficiente pra desintegrar o vírus que o álcool. Prefira sempre lavar as mãos e deixe o álcool gel apenas para quando estiver na rua, sem opção. Aqui mais um vídeo explicando como esse processo funciona.

9. Eu não sei se é cultural do brasileiro, ou se fui eu que aprendi errado. Mas a grande maioria das pessoas usa as mãos para cobrir boca/nariz ao espirrar ou tossir. Isso é uma das piores coisas que você pode fazer. Eu só fui aprender a usar a parte interna do cotovelo depois de adulto, quando tive contato com culturas de fora do Brasil. Pra mim essa é uma daquelas coisas simples da vida que quando você percebe, parece que sua cabeça explode 🙂

Por fim, deixo mais dois vídeos interessantes. O primeiro, uma live super informativa com o clássico Dr. Drauzio Varella. O segundo, um experimento fantástico do Mark Rober mostrando como mesmo tomando cuidado, o convívio social tem uma capacidade gigantesca de espalhar vírus por aí.

Dont panic, vai dar tudo certo 🙂

 

Grande abraço,
Fernando Aguirre