Coworking 100% feminino: conceito busca potencializar o empreendedorismo delas

Espaços exclusivos para mulheres vêm ganhando força em todo o mundo. Confira as razões desse movimento e aonde ele quer chegar.

Imagem Coworking 100% feminino: conceito busca potencializar o empreendedorismo delas

Na mitologia chinesa, a deusa Nüwa representa o feminino. Metade mulher e metade serpente, segundo a lenda, ela ficou a cargo de organizar o caos do mundo para, assim, dar origem à humanidade. Ela seria, em outros termos, a mãe cósmica de toda a criação.

Em Porto Alegre, capital dos gaúchos, há também uma Nüwa. Ou melhor, Nuwa (assim, sem trema) — um coworking apenas para mulheres. Dito assim, a escolha do nome é mais que apropriada, claro. Nesses ambientes exclusivos, o objetivo é, justamente, fomentar a potência feminina para que criem, para que tragam à luz seus negócios.

Mas, há muito mais por trás desse conceito de espaços compartilhados de trabalho nos quais homem não entra. Em todo o mundo, o formato se consolida como um oásis de segurança, fortalecimento da confiança e empreendedorismo feminino.

Foco nas necessidades das clientes

A Nuwa nasceu da vontade conjunta de duas amigas, ex-colegas da faculdade de Publicidade, de criarem um espaço que fortalecesse a confiança feminina. Esse desejo foi oriundo das experiências profissionais e de vida de ambas.

Gabriela Teló já foi analista de comportamento do consumidor, justamente com projetos relacionados ao feminino. Nessas pesquisas, pôde atestar e se aprofundar sobre as dificuldades das mulheres em se colocarem no mercado e venderem seus serviços, muito disso por conta da falta de autoconfiança.

Já a Gabriela Stragliotto trabalhou como diretora de marketing e artista plástica, sempre tendo o empreendedorismo como viés na carreira. Mas percebia como isso era muito mais difícil para as mulheres, especialmente no formato tradicional das organizações brasileiras.

Nuwa coworking para mulheres

Espaço do Nuwa, coworking exclusivo para mulheres em Porto Alegre

Assim, após buscar investidores, a Nuwa abriu as portas em 2018 e hoje conta com três pilares de serviços: coworking, conteúdo e comunidade. Isso porque, além de ser um local de trabalho, realiza encontros, eventos e palestras para as associadas, com temas variados e o objetivo de trocar informações e experiências sobre vida profissional e negócios.

“Já tínhamos uma escuta ativa sobre as dificuldades das mulheres no mercado de trabalho. Sabemos que esse problema é muito maior e envolve, também, os homens, mas agora nosso foco é todo nas necessidades das mulheres”, explica Teló.

Ambiente e infraestrutura voltados para mulheres

A questão passa, ainda, pelo afastamento da estética habitual dos espaços de coworking.  Para Gabriela Stragliotto, a maioria dos ambientes são pensados por homens para homens. Percebe-se isso nos detalhes: largura dos assentos, temperatura do ar-condicionado, espelhos de corpo inteiro, muito cimento, madeira, tons acinzentados. “Nossa ideia era criar um lugar com energia de casa. Para isso foi fundamental pensar nas necessidades do dia a dia de trabalho, de que muitas profissionais só se dão conta que tem quando chegam aqui.”

Gabriela Teló e Gabriela Stragliotto

Gabriela Teló e Gabriela Stragliotto, proprietárias do Nuwa

Como o foco é a mulher, e tudo que envolve o universo feminino, o espaço é child-friendly, ou seja, mães com  filhos pequenos são muito bem-vindas. E podem, por exemplo, amamentar onde se sentirem confortáveis. Seguindo essa política inclusiva, mulheres trans também têm lugar garantido na Nuwa.

 

Para aquelas clientes que precisam fazer reuniões que incluam homens, não tem problema. Há uma sala específica para isso, com uma passagem lateral, sem que eles precisem passar por dentro da casa. Simples e eficiente.

E o dinheiro?

Um ponto que pode gerar dúvidas é sobre a receita de um empreendimento exclusivo para mulheres. Afinal, escolher um nicho tão específico prejudica as finanças, ainda mais no início do negócio?

Para as proprietárias da Nuwa — que em apenas um ano contabiliza 36 clientes com assinaturas fixas, cerca de 40 daypass por mês, eventos sempre lotados e planos de expansão para São Paulo e Belo Horizonte —, a resposta é clara: não prejudica!

“Há muitos espaços que recebem todos os públicos – na verdade, são quase todos os coworkings que existem hoje. Então não haveria razão de o nosso negócio existir se fôssemos incluir homens. Se mais adiante isso se mostrar uma vantagem alinhada ao nosso propósito, podemos repensar”, diz Teló.

Movimento global de coworking para mulheres

O conceito de coworking 100% feminino é bastante recente no Brasil, mas nos Estados Unidos ele está a todo vapor há algum tempo. Desde 2016, em Nova Iorque, o famoso The Wing ocupa 8 mil m² de um charmoso prédio com acesso apenas para elas, em um mix de espaço comunitário, social e de trabalho.

Assim que abriu as portas, no entanto, o empreendimento se viu envolvido em uma polêmica: foi acusado de segregacionista. A Comissão de Direitos Humanos da cidade foi acionada para averiguar se o local estava infringindo a lei. Afinal, Nova Iorque, como boa parte das cidades norte-americanas, prevê que os locais de alojamento público não podem discriminar pessoas com base em características como raça, religião, deficiência ou sexo.

Contudo, a investigação não foi além, uma vez que o The Wing não é um restaurante ou um teatro, mas sim um clube claramente privado que se anuncia como tal. Não está, dessa forma, sujeito às leis de acomodação pública.

Além disso, o absoluto sucesso do espaço, que já abriu outras quatro unidades, tem mais de duas mil sócias e uma lista gigantesca de espera por vagas, parece reforçar a necessidade desse tipo de iniciativa. Especialmente em tempos de movimentos como o Time’s Up, contra o assédio.

Canadá, Inglaterra e França também têm seus coworkings unicamente para mulheres. E no Brasil há outros bons exemplos, como o recém-inaugurado Spaces by Fabiana Scaranzi, em São Paulo. Ao que tudo indica, o movimento é global e só tende a crescer.

Até mesmo a sempre polêmica Rússia tem o seu. Por lá, o coworking Simone — em homenagem à escritora francesa Simone de Beauvoir — enfrentou o mesmo problema do The Wing. Embora as leis do país prevejam a separação por gêneros em ambientes públicos, houve muita comoção quando o espaço começou a ganhar notoriedade. Mas as donas do local não se abalaram e ele vem sendo um ponto de encontro de profissionais e ativistas feministas.

Espaços de proteção e fortalecimento

De fato, a criação de espaços seguros para o desenvolvimento pessoal e profissional das mulheres não deve ser confundido com segregação. Para Joanna Burigo, fundadora da Casa da Mãe Joanna e mestre em Gênero, Mídia e Cultura, é preciso inverter esse argumento quando se trata de grupos reconhecidamente oprimidos.

“Aqui se entra no que chamamos de ‘padrões duplos de tratamento’, ou seja, ‘dois pesos, duas medidas’. Às vezes é preciso que isso aconteça. Criar espaços seguros para mulheres, que são assediadas e abusadas, não é discriminação de gênero”, afirma. “Um exemplo no Brasil é o vagão rosa no metrô. Claro que eu preferia viver em um mundo onde não há necessidade disso. Mas e até que cheguemos lá? Vamos ter que aguentar o assédio? É preciso, sim, criar ambientes de proteção e fortalecimento das minorias.”

É preciso, sim, criar ambientes de proteção e fortalecimento

Em espaços de trabalho, então, esse respaldo pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso de um projeto. Gabriela Teló destaca uma pesquisa da universidade de Princeton, que apontou que as mulheres falam 75% menos em ambientes profissionais onde a maioria é de homens. Isso acontece por uma questão cultural muito enraizada na sociedade: a voz feminina quase nunca é levada a sério e, normalmente, é preterida pelas masculinas.

“Quem fala em segregação está falando de um lugar de privilégio. Então, deixamos claro que a nossa ideia não é separar homens e mulheres, e sim ter um lugar que seja só nosso, seguro, onde podemos nos expressar da forma que acreditamos. Para fortalecermos a confiança feminina precisamos estar primeiro entre iguais”, ressalta.

Empreendedorismo feminino em ascensão

Para as clientes desse tipo de empreendimento, a discussão sobre “excluir homens” é completamente secundária. A terapeuta Clarisse Guelves, associada da Nuwa, acredita que esses são questionamentos de quem não buscou conhecer a proposta real do espaço.

“Parto da premissa que as mulheres aprendem a ser mulheres com a ajuda de mulheres. A soma dessas forças, quando acontece desse lugar de potência, se multiplica. Então, um espaço exclusivo apenas fortalece os laços de sororidade e nos ensina o quanto a colaboração feminina é essencial. Colaboramos no trabalho umas das outras e prestigiamos e celebramos o sucesso”, pondera.

Recepção do Nuwa Coworking

Recepção do Nuwa Coworking

Sob esse mesmo ponto de vista, o aspecto central na ascensão de espaços compartilhados de trabalho exclusivos pode ser creditado a um fenômeno que se desdobra, o empreendedorismo feminino. Segundo dados do relatório Global Entrepreneurship Monitor 2017/18, o índice de negócios criados e capitaneados por mulheres aumentou 6,6% nos mesmos 50 países que participaram da pesquisa em 2016. Já o índice masculino aumentou apenas 0,7%.

“Existe um alargamento da ideia de mulheres empreendedoras em todo o mundo, em diversos ângulos, e isso parece ter sido um grande motivador para o surgimento de espaços que acomodem esses projetos essencialmente femininos”, avalia a especialista Joanna Burigo.

No fim das contas, um coworking 100% para mulheres parte do mesmo princípio que qualquer outro: ser um ponto de convergência de pessoas que buscam fazer um investimento de baixo risco para se apresentarem formalmente como empreendimento. Contudo, vem acrescido de fatores cada vez mais essenciais quando se trata de mulheres no mercado de trabalho, como segurança e apoio.

Mulheres podem, sim, criar negócios entre mulheres

Na Nuwa, a mensagem que se quer passar é de que mulheres podem, sim, criar negócios entre mulheres e que essa colaboração realmente tem retorno financeiro. “A ideia de que competimos e não confiamos umas nas outras é uma construção social para nos separar e, com isso, conquistarmos menos espaços”, reforça Gabriela Teló. “Só quem já foi acolhida por um grupo de mulheres sabe a força e importância dessa rede. E que essa mudança não tem mais volta.”

Como criar um espaço saudável e bem estruturado?

Se você está pensando em abrir um coworking exclusivo para mulheres, veja alguns pontos importantes a se considerar antes de levar em frente o projeto:

  • É importante ter um propósito, um viés social, oferecendo às associadas mais que apenas um espaço físico.
  • Estabeleça um cronograma de atividades de fortalecimento feminino por meio dos negócios e convide profissionais de diversas áreas para participar.
  • Seja inclusivo, pense em todos os tipos de mulheres e suas necessidades – as que são mães, as mulheres negras, as trans.
  • Invista em uma decoração/estrutura pensada para mulheres, com local de amamentação, fraldário, etc. Os ambientes, em geral, são pensados por homens e para homens.
  • Tenha opções de planos mais acessíveis financeiramente, para que mulheres de diversas camadas sociais possam participar.
  • Ofereça uma opção de acesso a associadas que têm clientes ou fornecedores homens.

Uma boa ideia é conhecer histórias de pessoas que trilharam esse caminho antes e agora compartilham suas experiências na criação de comunidades profissionais voltadas 100% para mulheres. Leia o texto sobre a ascensão de espaços de coworking exclusivamente femininos nos Estados Unidos.

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